
Quem me acompanha de outros blogs sabe que sou um aficionado por política, mas política a sério. Como é óbvio também saberá das minhas maratonas pela madrugada fora a acompanhar processos eleitorais de outros países (quando assim é possível). Por isso, como não podia deixar de ser, na noite passada acompanhei em directo a maratona do primeiro dia da Convenção Nacional Democrática que se realiza em Denver.
Em Portugal as estações de televisão optaram por dar voz ao marketing político e teatral que envolve a família Obama. No fundo, eles tentam demonstrar aos EUA que também são americanos, e que não se tratam de extra-terrestres que para ali andam. É até impensável haver necessidade de passar por tal processo em pleno ano 2008, ainda para mais nos Estados Unidos da América, país que se diz livre e democrático. Mas voltando ao assunto da cobertura televisiva, sinto que faltou mostrarem o que mais importante se passou no Pepsi Center. E o grande momento, o momento que os EUA precisavam de ouvir, sendo também o discurso que Portugal precisava de ter, foi o discurso do Senador Edward Kennedy. A reter: «new hope», «the cause of my life». Digam-me que político em Portugal é capaz de semelhante atitude e modo de estar.
Custou-me bastante saber que o primeiro dia após o término das férias do primeiro-ministro fosse para elevar a emprego de futuro 1500 postos de trabalho temporário num call-center. É a isto que estamos reduzidos. Mais valia ter continuado de férias o resto da legislatura.

A quem desvaloriza aquilo que se passa no conflito georgiano é bom que comece a acordar para vida, pois caso não se tenha dado conta, para além de neste momento estar envolvida a Rússia e a Geórgia, o assunto começou neste momento a tocar a todos os membros da NATO, o que inclui obviamente Portugal. Esta é apenas a primeira vez que a Rússia usa o seu poder militar de forma intensa fora do seu território, precisamente desde o final da Guerra Fria.
Ironia do destino, George Bush quebrou o compromisso assumido pelo seu pai com Mikail Gorbachev, o de nunca expandir a NATO para além da Alemanha. Praticamente toda a Europa de Leste tem vindo a colar-se às instituições que têm sido o garante da paz nesta região do globo: a União Europeia e a NATO. Como se isso não bastasse, actualmente a administração americana encontra-se a pressionar para que mais dois antigos estados soviéticos se juntem à NATO. Refiro-me à Ucrânia e à Geórgia. Assim, em caso de confronto com a Rússia, para além dos Estados Unidos, toda a Europa estará envolvida.
O presidente georgiano, com aquele ataque igualmente desproporcionado à Ossétia do Sul, revelou o desastre que é a estratégia de Tbilissi, acabando por estupidamente abrir caminho às pretensões russas: primeiramente, enviar uma mensagem clara a todos os quantos se juntam à política externa americana, nomeadamente a Europa e os antigos estados soviéticos, mostrando que está de volta com os meios militares e políticos necessários a um confronto em larga escala; controlar aquela região do Cáucaso, tornando praticamente improvável a recuperação das regiões separatistas por parte da Geórgia; tornar a Geórgia instável de modo a impedir a sua entrada para a NATO; dividir profundamente a Europa, notando-se até na última reunião da NATO os efeitos dessa divisão com alguns países a refugiarem-se em acordos unilaterais que mantêm com a Rússia; e por fim, abalar a credibilidade dos Estados Unidos que com os seus meios militares dispersos em variados conflitos, não teve meios para proteger um dos seus aliados.
Perante isto, concluo que o escudo anti-míssil a instalar na Europa não visa a protecção dos Estados Unidos, mas sim da própria Europa. E agora que penso melhor no assunto, porque motivo iria Washington instalar um sistema de protecção destes na Europa, se o poderia fazer em pleno Oceano Atlântico tal como já fez no Oceano Pacífico. Na verdade, sem que as pessoas se apercebam, tal como no passado, a espionagem deverá ter-se intensificado. Oxalá esteja errado, nunca se saberá em concreto quando começará uma grande guerra, até pode ser agora. Pelo menos as condições estão reunidas.

Há coisas que estão muito mal explicadas neste conflito. O que se vê retratado na comunicação social não segue uma lógica. Parece que se arranca com o acompanhamento desta guerra a meio sem que se tente perceber o seu início. Esta falha grave está a levar a que se classifique a Rússia como única culpada, a ovelha negra do conflito, quando na verdade tudo começou com um ataque massivo da Geórgia à região autónoma da Ossétia do Sul. Nesse ataque massivo não se olhou a meios. A destruição do hospital da capital Tskhinvali devido aos bombardeamentos georgianos levou a que se evacuasse os doentes para a cave do mesmo, uma cave húmida, com canos totalmente oxidados no tecto e provavelmente com fugas, sem um mínimo de condições. Paralelamente as escolas e zonas residenciais também levaram uma razia. Há muito poucas imagens deste lado do conflito, apenas a comunicação social russa dá preferência a este lado da história, e não digo que não estejam a ser igualmente fundamentalistas.
Acabamos por ver, que de facto, a Geórgia tem culpa – muita culpa, diga-se – do que se está a passar. Mikheil Saakashvili – presidente georgiano – tem uma estratégia desastrosa em todo este processo, acabando por acordar um gigante que se espuma de raiva pela constante humilhação a que é submetido pelos Estados Unidos. Não devemos esquecer que a Geórgia traiu a Rússia fornecendo armamento aos rebeldes chechenos. Uma traição é das coisas mais difíceis de engolir, daí que compreenda em parte o enfurecimento da Rússia.

Mas, afinal, porque terá a Geórgia atacado a província da Ossétia do Sul? Não vejo ninguém a questionar-se sobre tal atitude. É este desinteresse, esta hipocrisia de se chamar tudo e mais alguma coisa à Rússia, que revela uma profunda ignorância das intenções de um bando de traidores, que nada garante que não o sejam novamente com «os novos amigos» que fizeram.
Vamos situar-nos. A Ossétia do Sul tem grandes ligações à mãe Rússia, inclusivamente a nível étnico, daí que essa estreita ligação tenha levado a Rússia a reagir e a vir em socorro daquela província. Como já devem saber – até por posts anteriores escritos por mim – esta província pretende obter a independência. Quantos exemplos de separatismo se encontram pelo mundo, nomeadamente em Espanha? Seria aceitável o exército espanhol realizar ataques massivos à província basca atingindo escolas e hospitais? Claro que não é aceitável! Mas foi o que a Geórgia acabou de fazer no início deste mês com a Ossétia do Sul!
O ataque desencadeado pela Geórgia à Ossétia do Sul veio criar uma oportunidade, uma razão ou justificação para que a Rússia se estabeleça naquele território, e que por via dos seus interesses, tente inclusivamente, controlar a região por onde passa o pipeline vindo do Azerbaijão.
O cerne da questão, e a origem deste conflito está pouco clara. Mas eu irei clarificar. Afinal porque raio a Geórgia atacou aquela província? Bom, é extremamente simples. Como a Geórgia se envolveu com os chechenos levando à quebra das boas relações com os russos, ficou extremamente vulnerável naquela região. Só a inclusão da Geórgia na NATO poderá dar a protecção que aquele país necessita. Um dos requerimentos para adesão à NATO é a inexistência de disputa de territórios. Como a Geórgia se encontra com esses problemas que impedem a sua adesão à NATO, e como os Estados Unidos e a União Europeia têm interesse que aquele pipeline não fique sob controlo russo, houve um incentivo, um apoio de bastidores, para que a Geórgia, por via da força, desse uma resolução aos problemas de separatismo. O que os georgianos não esperavam é o visível abandono dos países ocidentais interessados no pipeline, porque provavelmente até estes, dada a incompetência política, não esperavam esta reacção da Rússia. E certamente que agora têm o rabo entre as pernas, uma guerra com a Rússia nunca será bom.

O maior fornecedor de gás e petróleo para a Europa é a Rússia. Parece que se tratou de uma moeda de troca para a aceitação de um papel secundário no leste europeu, com este a implantar-se na União Europeia e na NATO.
O recente pipeline que certamente poderá estar na origem deste conflito, parte do Azerbaijão, passa pela Geórgia, e até ver tem o seu términos na Turquia. Digo «até ver» porque é provável que com o pipeline em território turco, este se dirija para a Europa fazendo concorrência directa com os pipelines vindos da Rússia, tornando-se assim no único que seria independente dos russos. Note-se que o interesse de controlar este pipeline é obvio, tanto que se verifica que até ao momento não há qualquer relato que tenha sido bombardeado. Estamos a falar de uma região onde se encontram algumas das maiores reservas de petróleo e gás do mundo.
As pretensões da Geórgia em entrar para a NATO procurando protecção do Ocidente, vieram manchar os planos russos. A iniciativa de Saakashvili – presidente georgiano – em atacar as províncias separatistas poderá ter sido uma provocação julgando que a Rússia não reagiria desta forma. Enganou-se! É assim provável que a Rússia de tudo faça para promover a queda do actual regime de modo a controlar aquela região. O presidente georgiano meteu-se na boca do urso, e agora corre perigo de vida.

Com a garantia de lealdade à Federação Russa, a Geórgia controlava as rebeliões na região e recebia apoio militar. Esta era pelo menos a predisposição de Moscovo. No entanto, em 1999 com a crise na Chechénia, a Geórgia é acusada pela Rússia de traição por fornecer apoio militar aos rebeldes chechenos.
A Ossétia do Sul é uma região separatista que se encontra no norte da Geórgia, na fronteira com a Rússia. Em 1991, quando a Geórgia se torna independente da Rússia, lança uma ofensiva militar contra a Ossétia do Sul. Como por essa altura as relações entre Tbilissi e Moscovo eram favoráveis, a Rússia torna-se mediadora do conflito. No entanto, tendo essas mesmas relações azedado em 1999 devido ao conflito checheno, quando a Geórgia tentou há dias nova investida entrando em território osseta, desencadeou esta intervenção russa em socorro dos rebeldes ossetas.
O que torna este conflito perigoso é o envolvimento dos Estados Unidos. O seu posicionamento ao lado da Geórgia só irrita ainda mais os russos, dado que os russos também se opõem ao sistema anti-míssil americano a instalar na Europa. Os russos acreditam que este sistema anti-míssil visa unicamente a Rússia e sentem-se humilhados pelos Estados Unidos, querendo neste conflito mostrar que para além de uma velha potência, ainda têm poder suficiente para intervir militar e politicamente na sua região envolvente. É o regresso deste frente-a-frente entre os Estados Unidos e Rússia que leva a que paire no ar, novamente, um ambiente de Guerra Fria. A Geórgia tem petróleo e gás natural, daí que outros interesses estejam envolvidos no conflito. Por outro lado, com o desejo da Geórgia em se aproximar do ocidente, é um interesse dos Estados Unidos garantirem um aliado naquela região, que se enfaixa entre a Rússia e o Irão.
Hoje em dia apoiar Barack Obama é sexy, mesmo que não se conheça uma linha dos seus propósitos. O homem está de tal forma na ribalta que para além de já se tornar numa moda, também é uma religião. Para os seus fanáticos seguidores o mundo nunca mais será o mesmo. E talvez assim seja.
Muito se falou que o discurso de Obama, na Coluna da Vitória, em Berlim, seria histórico. Esta madrugada eu tentei perceber o porquê e acabei por descobrir: abriu-se o precedente de que um computador portátil também dá uma excelente câmara de vídeo, mesmo que seja no meio de uma multidão de duzentas mil pessoas.

Se eu tivesse um brinquedo destes, hoje iria sentar-me numa galeria da Assembleia da República.
Em Portugal existe uma proporção de um advogado para cada 300 portugueses. Na Finlândia o número sobe de um para 6000. Voltando à realidade nacional, deparamo-nos com tantos ou mais informáticos que advogados. Apesar de tudo isto, o Governo anuncia o aumento do número de vagas nos cursos de ambas as áreas.
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